Ainda era cedo quando Vinícius caminhava pelo centro de Goiânia em direção ao seu estágio, e em uma pequena rua ainda sem movimento teve o azar de presenciar a cena do atropelamento de um cachorro. No local haviam dois cachorrinhos, tudo indica que se tratava de um casal, e enquanto o acidentado dava seus últimos movimentos o outro o observava inquietamente, parecia querer entender o problema do seu companheiro, parecia chama-lo ingenuamente: “Vamos, levante-se, você não pode ficar ai deitado o dia todo”. Aquela cena deixou Vinícius, por alguns instantes, triste e reflexivo. Todavia o que realmente mexera com ele não foi a morte do animal, pois afinal de contas acidentes desse tipo acontecem aos montes e não se pode ficar sofrendo por isso. Mas a atitude do animal sobrevivente o comovera, “como serão os próximos dias desse cachorrinho ?” pensava, e supunha que a resposta seria: dias de muita dor, de dor maior até do que a de um atropelamento.
O garoto então seguiu seu caminho com um leve ar de lamentação, o dia parecia não ter começado como pé direito. Já no serviço Vinícius começou o dia normalmente, sem grandes emoções, até o momento que o seu chefe chega e diz que a motocicleta que ele estava consertando, e cujos problemas não eram os mais simples de se resolver, era pra estar pronta ao fim do dia. Pressão profissional era algo que ele realmente odiara, e que o fazia alimentar ainda mais a imagem dos empresários capitalistas selvagens, devoradores de criancinhas.
Fim do expediente e ele então volta pra casa, pelo mesmo caminho e com a cabeça cheia de pensamentos e dúvidas. A passagem pelo local do acidente o fez reviver a angústia do animalzinho solitário, procurou por manchas de sangue pelo chão e nada encontrou, pensou “pelo menos os donos se deram ao trabalho de recolher o corpo e retirar o sangue”, e após alguns passos a mais sua mente voltou aos outros questionamentos. Tentava buscar a melhor estratégia para realizar todas suas atividades do dia, essa sexta-feira não seria como as outras. Logo após o almoço precisava decorar um texto, quando fosse em torno das quatro da tarde teria ensaio com seu grupo de teatro, após o ensaio teria aula na escola de artes. Essa aula era de suma importância, não seria interessante para ele mata-la, depois da aula correria para a casa de uma amiga pois havia um jantar para comemorar seu novo emprego, isso era algo muito importante para ela, e logo após o jantar iria para um show ao qual ele estava aguardando a um mês, e com a companhia de sua namorada, fato que aumentava ainda mais sua ansiedade.
Assim que passou pelo portão de sua casa se deparou com sua mãe que veio lhe contar uma notícia que o deixara extremamente preocupado:
O rapaz da oficina disse que talvez o carro não fique pronto, pois ele está encontrando novos problemas. (disse a mãe com um ar de comoção pela situação do filho)
Como é? Não é possível, eu fiz mil compromissos hoje contando com esse carro, maldição! (disse extremamente irritado)
Ao almoçar parecia não sentir o sabor dos alimentos, comia de maneira completamente automática, e enquanto isso seu cérebro buscava uma solução pra mais esse problema. O dia não caminhava nada bem.
Outro fato que o incomodava era o de sua namorada estar incomunicável neste dia, ela estaria sem telefone celular, seria difícil avisar a ela coisas emergenciais, e ele também não queria desistir tão fácil deste esperado dia. A agonia estava tão forte que resolveu ir à oficina para saber a situação do veículo, era melhor saber de vez como o dia ia se concretizar do que ficar sofrendo a tarde toda.
Já na oficina enfim ele parecia ter a primeira boa notícia do dia: “No fim do dia fica pronto sim, pode ficar tranqüilo.” dissera o mecânico que cuidava do carro. Voltou pra casa satisfeito e confirmou com a namorada o fato, via internet. Um alívio, a partir de agora as coisas tem reais motivos pra soar suavemente.
Após combinar com sua garota o local de encontro foi então estudar o texto que devia decorar. A realização desta tarefa foi leve, e logo chegou o momento do ensaio com o grupo de teatro. Ensaio em meio de semana é sempre complicado, as pessoas estão cansadas, estão vindo de outras atividades desgastantes, e o rendimento às vezes fica abaixo do esperado. E essa estatística foi então confirmada, o ensaio não foi dos melhores. Mesmo o dia estando tumultuado e mesmo após esta atividade em grupo sem grandes resultados Vinícius resolveu não se chatear, pois a melhor parte do dia ainda estava por vir, e afinal de contas o que havia pra acontecer de errado parecia já ter ocorrido.
Ao chegar em casa, logo após o ensaio o garoto da de cara com a mãe, cuja face expressava o mesmo sentimento do momento em que ela havia lhe contado sobre o carro antes do almoço, teve então alguns segundos de pânico, que duraram até o momento que ela diz:
Essa notícia soou como uma bomba aos ouvidos de Vinícius, e novamente sua mente ficara perplexa e repleta de dúvidas e dores. O argumento que usava pra explicar sua tristeza era o fato de já ter comprado ingresso para o show, o fato de sua presença ser muito importante no jantar de sua amiga e também por sua namorada não estar com telefone, como ele a avisaria que tudo dera errado? Os ingressos já comprados era o que menos o incomodava, porém perder tais momentos e deixava com um amargo gosto de derrota na língua.
Neste momento ele só queria sentir raiva, era o ápice do fracasso deste dia tão agitado, viva o fritar dos ovos de um momento maldito. Contudo após dar a noticia sua mãe teve que sair com sua tia, o que o deixara ainda mais desconsolado, mas durante a saída das duas elas especularam a possibilidade de Renato, filho desta dia, emprestar o carro à Vinícius, pois ambas perceberam o desespero do garoto e também devido ao fato de considerarem que seu primo não se importaria de ajuda-lo.
Assim que retornaram comunicaram a ele a possibilidade de recuperação desta noite tão esperada. Ainda meio desorientado ele liga pra sua amiga comunicando o fato e cancelando sua presença. Porém alguns minutos mais tarde, após duas tentativas, sua mãe, fazendo o maior esforço possível para não ver seu filho tão frustrado, consegue falar com Renato, que emprestou o veículo sem muitas complicações. A sensação foi de alívio imediato sentia então um balde de água apagando as chamas que queimavam-lhe a felicidade.
A ida à escola de artes foi descartada, pois seria ainda mais correria para o dia de loucuras, e Vinícius precisava respirar, colocar a cabeça no lugar, para poder então fazer bem feito o que ainda lhe restava de atividades pra esta sexta-feira. Descansou um pouco e foi ao jantar. Tudo correu conforme esperado, talvez até melhor. Após o término foi então buscar sua namorada, e no momento em que parecia que mais nada de errado poderia acontecer ele se vê na porta do prédio interfonando um número que insistia em tocar sem resposta, ela estava na casa de uma amiga.
Novamente a sensação de impotência tomou conta de todo seu corpo, pois não havia como ele ligar pra ela, para saber o que estava acontecendo. E quando se afastou um pouco da portaria ela aparece na sacada e avisa que vai descer, ela havia lhe informado o número do apartamento errado.
No momento em que se encontram ele sente que todo aquele sofrimento fora compensado por breves instantes, pois apesar de tantas pedras no caminho sua jornada parecia ter obtido o sucesso esperado. Ainda com medo de acontecer algo seguiram até o local do show e no momento em que estavam de fato dentro do estabelecimento ele soltou um “ufa!” no fundo de seu coração.
Daí pra frente foram apenas surpresas agradáveis, uma excelente noite para compensar um dia duro, mas afinal de contas Vinícius é ainda mais duro do que esta sexta-feira e é necessário mais do que isso pra faze-lo desistir.